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Artes - O Julgamento Impressionista


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O impressionismo se lançou em 1873 e, como qualquer movimento revolucionário, teve de enfrentar a acusação dos conservadores habituados a ditar o padrão aceitável dos costumes. As críticas a Olympia ( quadro reproduzido abaixo, à direita da foto), pintada por Édouard Manet ainda em 1863, têm sido usadas para exemplificar a reação irascível a novidade sobretudo na arte.


Referiram-se a ele com adjetivos como "imoral" e "vulgar".
Cabe aqui ressaltar que mesmo o uso destes adjetivos e o tom agressivo como foram proferidos se restringe ao caráter técnico e não ao conteúdo temático do quadro. Como se vê na foto abaixo, Olympia é um estudo onde Manet faz uma reinterpretação da Vênus de Urbino por Ticiano (a esquerda na foto), quadro pintado trezentos anos antes de Olympia e desde sempre exposto na Galeria de Uffizi e que, por sua vez foi baseado na Vênus Adormecida de Giorgione, pintado antes, em 1510. Não seria portanto a exposição da nudez feminina o que causaria tal escândalo, como afirmam alguns.



O quadro seria "vulgar" no sentido de não obedecer as regras de execução acadêmica como proporção, perspectiva e composição, por exemplo. Tomando a moral como nada além de um padrão preestabelecido, imoral será tudo o que fugir a este padrão. É nesse sentido que caminhou toda a crítica dirigida a obra dos impressionistas na época. O próprio termo "impressionista" foi cunhado como um termo pejorativo, como a tratar-se de uma obra inacabada, que não passaria de uma impressão do que poderia ser, se as regras de execução vigentes fossem seguidas.

O fato é que no movimento impressionista havia o objetivo consciente de ignorar (seja por limitação técnica do autor, ou por ação deliberada) a importância do desenho na composição da obra em favor do uso efusivo da cor e seus efeitos, favorecido pelo então recente advento dos pigmentos industriais que contribuíram enormemente para a variedade nas paletas dos pintores. Tratava-se do desenvolvimento de uma nova técnica em vez da ausência de técnica, como os próprios críticos seriam obrigados a reconhecer mais tarde.

Pela reação a Olympia, embora não seja este um típico representante do impressionismo em termos estritamente técnicos e nem mesmo contemporâneos,  talvez se possa imaginar qual não foi a receptividade a pinturas como o Nascer do Sol, de Monet, e as demais obras apresentadas na exposição inaugural do movimento dez anos depois.

E por quê os críticos tiveram de reconhecer o impressionismo?

Porque os impressionistas foram absolvidos pelo júri, isto é, pelo público disposto a pagar para adquirir seus trabalhos, seduzido pelo efeito que a profusão de cores bem distribuídas proporciona. O impressionismo é arte afinal. A arte seduz.

Durante muito tempo o desenho foi considerado a base de qualquer das artes plásticas. O artista precisava dominar a execução da técnica segundo o rigor acadêmico antes de se aventurar nas demais modalidades. O impressionismo teve o mérito de libertar aos pintores da exaustiva repetição de esboços, até que se convencessem de ter alcançado o máximo da perfeição acadêmica, para que pudessem se dedicar ao seu ofício principal que é o de pintar. Mas isso ainda não os liberara da obrigação de estudar exaustivamente as cores e suas composições.

Hoje, sob o mote da liberdade inaugurada por aqueles artistas geniais, estamos chegando ao limiar onde um artista para ser artista não precisa saber nem desenhar, nem mais nada do que se refere a qualquer técnica de execução artística. E que lhes basta dizer que é arte para que seja. Mas falta-lhes ainda passar pelo crivo do júri. O artista vai até onde o povo está. Para além disso é o ostracismo, o nada absoluto.

O caso dos impressionistas nos deixou uma grande lição. Os críticos, os analistas, e até os curadores podem errar desgraçadamente.

Nada é santo apenas porque acontece numa igreja.
Nada pode mudar de nome só porque está em um museu.

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