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Artes - O Artista

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Então você escolheu ser artista plástico. Faz muito bem. A arte seduz, encanta e arrebata a todos os seus admiradores. Acompanha a humanidade desde o início da civilização e recentemente, digo, há pelo menos 500 anos, se tornou um produto mercadológico de grande valor comercial pela procura, sendo objeto de admiração e honra para pessoas de todas as classes sociais. Viver de arte é verdadeiramente uma excelente escolha profissional.



Permita-me alguns conselhos que podem lhe ser úteis nesta caminhada.

O primeiro deles, não poderia deixar de ser, faça um curso superior. Não que você não possa se tornar um grande artista sem um curso superior. Mas, a despeito do romantismo que se atribui ao auto-didatismo e do orgulho derivado de poder dizer que aprendeu tudo sozinho, seu reconhecimento como profissional das artes poderá ser muito dificultado pelos que se apossaram da função  de divulgadores da cultura. Melhor ter um diploma de nível superior. E não precisa ser de uma grande universidade reconhecida internacionalmente pela qualidade de seus cursos. Qualquer faculdade serve, desde que você consiga o diploma.

Com um diploma você será sempre um artista, não importa que porcarias você ofereça ao mercado. Nestes tempos em que os conceitos de arte se encontram diluídos em discussões inócuas, qualquer aberração que você fizer será sempre arte, porque você terá um diploma para esfregar na cara dos críticos, especialmente aqueles que nunca fizeram nenhum curso na área e que apelam apenas ao gosto pessoal em seus julgamentos. Um diploma dizendo que você é artista poderá ser a única coisa a constar de seu currículo quando se candidatar a uma mostra, por exemplo, o que per si já lhe garante uma grande vantagem sobre os autodidatas, mesmo que a técnica deles se mostre melhor que a sua.

Os cursos superiores de arte exigem uma avaliação de habilidade específica, o que nos leva ao segundo conselho.

Aprenda a desenhar. Não precisa chegar ao ponto de saber reproduzir os objetos com a perfeição acadêmica dos clássicos renascentistas. A maioria dos professores que você encontrará nem sabe desenhar assim. Seus rabiscos e garranchos devem ser suficientes para que os avaliadores percebam que você tem alguma noção do espaço tridimensional que o cerca e é capaz de transportar esta percepção para um suporte bidimensional à sua frente. Tenha em mente que é justamente para aprimorar esta habilidade inata que você está se matriculando em um curso de artes. Seria absurdo exigir que você seja um artista antes mesmo de se matricular no curso. Mas que sem esta habilidade lhe será quase impossível se tornar um artista.

Van Gogh teve problemas de adaptação no curso de artes devido ao seu temperamento pouco afeito ao relacionamento humano, onde decidiu por abandoná-lo. Mas passou um ano inteiro aprimorando freneticamente seus desenhos antes de sentir-se capaz de arriscar no mundo das paletas e dos pincéis. Se você não for capaz de esboçar minimamente as ideias que fervilham sua mente num pedaço de papel a fim de avaliar-lhe a viabilidade, esqueça. Arriscar-se na confecção da obra artística sem um esboço previamente aprovado por sua sensibilidade estética é a maneira mais fácil de se decepcionar, o que repetidamente poderia levá-lo a desistir de seu projeto de vida. O que nos leva ao terceiro e, ao meu ver, o mais importante item de nossa conversa.

Exerça sua sensibilidade. Sensibilidade tem definições um pouco diferentes dependendo da área de estudo que aborde seu significado, mas para o artista significa estar ligado ao sentimento humano quando da execução artística. A arte é por uma de suas definições corriqueiras algo que toca as emoções das pessoas que a admiram. O projeto artístico exige empatia do profissional. A não ser que você se acredite piamente um gênio que vá revolucionar o mundo das artes, tenha em mente agradar ao seu público alvo, para não morrer de fome.

Nos primórdios, ainda nos tempos das cavernas, a representação pictórica precedeu a escrita nos planos de caça desenhados nas paredes. Desde então a arte não se desvencilhou de seu objetivo principal, que é o de estabelecer comunicação com o próximo. Então o público precisa estar convencido de que há uma mensagem minimamente inteligível na sua obra. Ao ponto de se tornar desnecessário explicá-la. Para evitar indesejáveis ruídos é essencial que sua emoção esteja intimamente ligada ao que poderíamos chamar de uma conciência humana e universal, que nada mais seria que a percepção do bom, do belo e do intrinsecamente passional, aquilo pelo que qualquer pessoa está sujeita a ser tocada.

Se quiser ser artista de fato, vivendo de vender sua arte, busque o interesse dos potenciais consumidores de seu trabalho, adequando ao máximo possível o seu conceito estético àquilo que os admiradores de arte esperam encontrar quando procuram arte em uma galeria. Não se deixe seduzir pelo apelo dos golpes patrocinados, tornando-se um alfaiate de roupas novas para falsos imperadores, porque cedo ou tarde alguém poderá lhe apontar o dedo desmascarando seu embuste.

Claro, você sempre poderá tentar da maneira mais difícil, mas não espere encontrar reconhecimento nos métodos pouco ortodoxos que por ventura escolher trilhar. Se quiser apenas chocar a sociedade jogue seus excrementos na parede ou fique nu no meio de uma sala. Acima de tudo, não culpe ao público quando este rejeitar aquilo que você esteja convencido de ser uma legítima manifestação artística. Porque ao fim e ao meio, é para os outros que a arte se destina e sem a aprovação do consumidor o que quer se faça não é nada, chame você do que quiser.

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