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Religião - A Controvérsia Mórmon

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Não fosse pela inferência de verdade religiosa atribuída ao Livro de Mórmon, ele figuraria facilmente entre os melhores livros de ficção já escritos, e Joseph Smith Jr. poderia ser considerado um dos gênios modernos da literatura mundial. O livro conta a história de um grupo de hebreus que, fugindo da perseguição babilônica já no século V antes de nossa era, supostamente teria escapado de Israel para se estabelecer do outro lado do Oceano Atlântico, onde hoje se encontram os Estados Unidos da América, ou sejam, exatos 2.000 anos antes de Cristóvão Colombo ter pisado pela primeira vez em solo americano.


Há pouco mais de dez anos dois jovens missionários muito simpáticos bateram minha porta me oferecendo um estudo sobre a teologia Mórmon. Eles me ensinaram que o Livro dos Mórmons, é uma compilação apresentada ao mundo pelo jovem Joseph Smith em 1820, a partir da suposta tradução de antigas escrituras, feitas em placas de (ou semelhantes a) ouro, às quais Smith ainda criança teria sido guiado por um anjo. A narrativa do livro pretende contar como um povo pré-colombiano de origem hebraica teria conhecido as boas novas tal qual  anunciadas nos evangelhos, mas isso cerca de seiscentos anos antes dos seguidores de Jesus tê-las descrito.

Sendo eu um estudioso da Bíblia, especialmente do chamado Novo Testamento, costumo ler e comparar várias traduções diferentes sempre que encontro alguma passagem controversa, de modo que acabei me familiarizando com várias das versões. Na medida em que eu avançava na leitura do Livro dos Mórmons com os jovens missionários, eu sentia como se estivesse relendo um dos livros da minha biblioteca, tal era a exatidão com que Néfi, o primeiro profeta do livro fazia referências aos acontecimentos narrados nos evangelhos. Mais impressionante ainda se tornava a leitura pelo fato de alegarem que o profeta recebera tais visões 600 anos antes de terem sido narradas pelos evangelistas, embora fossem contadas praticamente com a mesmas palavras.

Foi só quando chegamos ao Décimo Capítulo do livro de Néfi minhas suspeitas se confirmaram, e eu pude identificar com exatidão a qual tradução do Novo Testamento o jovem Joseph Smith havia recorrido para consultar os relatos do evangelho que ele atribuía na sua fantástica história sobre um profeta desconhecido do período pré-exílico.

Quem lê ou leu os evangelhos em traduções feitas por editoras diferentes, mesmo que estejam no mesmo idioma, já deve ter percebido que, embora a espinha central do modelo conte sempre a mesma história, existem pequenas diferenças entre as versões, seja pela construção de algumas frases e expressões ou pelo uso de sinônimos para se referir uma mesma situação ou a um objeto. Mas há casos de diferença pelo uso de palavras que podem não fazer parte do texto original, mas que são incluídas por determinação e convicção pessoais do tradutor.

Vejamos o exemplo abaixo:
"Estas coisas aconteceram em Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando."
João 1:28 - Versão Almeida Corrigida Revisada e Fiel
"Estas coisas aconteceram em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando.
João 1:28 - Versão Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira

Em que pesem as pequenas diferenças entre os textos acima, não se pode dizer que contem histórias essencialmente diferentes. Mas notamos que, embora as traduções sejam atribuídas ao mesmo tradutor (João Ferreira de Almeida), os nomes da cidade nas duas versões são diferentes. E eu já havia procurado saber o porquê desta diferença.

Aconteceu que Orígenes quando fez uma tradução do grego para o latim no terceiro século depois de Cristo, comparou a citação de "Betânia, do outro lado do Jordão" como o capítulo 11 do mesmo livro de João, onde conta que a Betânia, em que Lázaro morava com as irmãs, ficava situada a pouco menos de 3 quilômetros de Jerusalém, e que portanto as duas citações não poderiam se referir a mesma cidade, uma vez que o Jordão dista cerca de 20 quilômetros de Jerusalém.

Para resolver a questão, Orígenes decidiu que deveria se tratar de um erro da única cópia que ele possuía e que, de acordo com a arqueologia da época, João só poderia estar se referindo a cidade de Beth-Abarah, sem atentar para o fato de que poderiam existir duas cidades chamadas Betânia na época de Jesus, uma aquém e outra além do Jordão.

Orígenes é único tradutor que usou a palavra Betabara para se referir à cidade onde o Batista batizava. Os tradutores posteriores de posse de vários outros manuscritos, comparando-os, ficaram convencidos de que o nome da cidade estava certo e que a designação de "além do Jordão" servia justamente para diferenciá-la da outra Betânia. Em todos os manuscritos gregos, mesmo os mais antigos consta o nome da cidade como sendo a Betânia, do outro lado do Jordão.

Por respeito ao trabalho de Orígenes, que certamente foi consultado durante a revisão da tradução de Almeida, a editora da Versão Trinitariana do Novo Testamento, tanto no Brasil como nos Estados Unidos mantiveram o nome de Betabara, no lugar de Betânia.

Voltando então ao estudo do Livro dos Mórmons, acontece que o profeta Néfi não poderia ter tomado conhecimento desta discrepância de Orígenes em relação aos demais tradutores. Mas diz o texto que um profeta haveria de vir antes do Messias a preparar-lhe o caminho (evidentemente se referindo a João Batista, 600 anos antes dele nascer) e batizaria na cidade de Betabara, além do Jordão.

"Sim,
 seiscentos
 anos
 depois
 de 
meu
 pai
 ter
 deixado
 Jerusalém,
 o
 Senhor
 Deus
 levantaria
um 
profeta
 entre
 os 
judeus — um
 Messias,
 ou,
 em
 outras
 palavras,
 um
 Salvador 
do
mundo.
 (...) E
 disse
 meu
 pai
 que
 ele
 batizaria
 em
 Betabara,
 além
 do
 Jordão;
 e
 também
 disse
 que
 ele
 batizaria
 com
 água;
 que
 ele
 batizaria
 o
 Messias
 com 
água.
" 

É evidente portanto que o garoto Joseph Smith, sem saber desta controvérsia entre tradutores e traduções e tendo apenas uma Versão Trinitariana para consultar enquanto inventava sua história, foi induzido a um erro crasso que denuncia a maior peça já pregada por um menino em toda a humanidade. O que não desmerece-lhe o talento literário, pela forma como imaginou e escreveu esta bela história.

Depois que mostrei esta passagem aos jovens missionários, infelizmente eles nunca mais voltaram para continuarmos os estudos.


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