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Esportes - Meritocracia

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Os grandes eventos esportivos, como no caso das Olimpíadas, tem o condão de criar simbolismos próprios, que extrapolam as intenções e as expectativas de seus realizadores.

Em 1933, Hitler se tornou chanceler na Alemanha defendendo a teoria racista da hegemonia dos brancos arianos sobre as demais raças e a inferioridade física e intelectual dos negros. Sob o governo de Hitler foram realizadas as Olimpíadas de Berlim, em agosto de 1936, onde ele pretendia por a prova perante o mundo sua idiossincrasia.


Quiseram os deuses do Olimpo que um Apolo negro, chamado Jesse Owens, soterrasse sob quatro medalhas de ouro ganhas nas competições de Atletismo a teoria infundada de Hitler, se tornando o símbolo de uma luta que ainda hoje parece longe de chegar ao fim.

Exatos 80 anos depois os caprichosos deuses gregos parecem ter eleito sua própria versão tupiniquim de Atena, deusa da sabedoria e da guerra. Nossa heroína involuntária atende pelo nome de Rafaella Silva. Involuntária, não que não se esperasse dela um boa participação no esporte que ela escolheu e pratica com afinco e disciplina desde os seis anos de idade, sendo já a campeã mundial na modalidade desde 2013. Mas porque coube a judoca ser a primeira, entre todos os esportistas olímpicos brasileiros, a ganhar uma medalha de ouro em solo pátrio. Este feito certamente marcará para sempre a memória e a história destas Olimpíadas.

Assim como Jesse Owens, Rafaella é negra. No Brasil este fato não estaria carregado do mesmo simbolismo que o de 80 anos atrás, não fosse por detalhes adjacentes que a referendam como representante fiel de um povo. Como Jesse Owens, a vitória de Rafaella vem desafiar uma teoria infundada.

Além de negra, como é autodeclarada a maioria dos brasileiros, Rafaela Silva é de origem pobre, oriunda de uma das mais conhecidas favelas do Rio de Janeiro. A favela Cidade de Deus, ganhou fama internacional através de um filme, que por sua vez foi inspirado no romance homônimo de Paulo Lins, onde o cotidiano da pobreza e da violência urbana a que está exposta a parcela menos assistida dos cidadãos brasileiros foi contado com os requintes de um realismo impressionante.

A medalha de Rafaella Silva, é a vitória do mérito, num momento em que auto-proclamados intelectuais colocam em discussão o suposto caráter excludente da meritocracia, usando especialmente o esporte por princípio, para exemplificar sua tese.

Mérito de Flávio Canto, judoca e medalhista olímpico que fundou o Instituto Reação, lutando contra a corrente intelectualizada da atualidade , por acreditar no esporte como oportunidade de promover o desenvolvimento humano e levar a inclusão social às comunidades carentes do Rio de Janeiro.

Mérito também do professor Geraldo Bernardes que viu nos olhos de uma menina, aos seis anos de idade, a vontade de buscar uma vida melhor através do esporte e que a incentivou vaticinando já naquela época sua chegada às Olimpíadas.

Sobretudo, mérito da jovem Rafaella Silva, que apesar do rosto de menina, soube enfrentar com coragem e determinação as adversidades que se apresentaram ao longo de sua carreira, se dedicando integralmente aos treinamentos e a disciplina que são exigidos aos praticantes das artes marciais, para hoje chegar ao lugar mais alto do pódio, recebendo os merecidos louros por seu esforço.

Não posso encerrar este texto sem mencionar ainda mais uma vez os que são contrários a avaliação positiva da meritocracia, que para tirar-lhe o mérito da conquista, usam de maneira desonesta nas redes sociais o fato de Rafaella ter se beneficiado de um programa governamental patrocinado pela Marinha do Brasil durante sua preparação para estas Olimpíadas. É preciso lembrar-lhes que a trajetória desta menina não começou há apenas quatro anos. Ela conquistou o direito de fazer parte deste seleto grupo. O fato da menina nascida numa favela do Rio de Janeiro hoje ser uma respeitada Sargento da Marinha, também é uma vitória do mérito.

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