Pular para o conteúdo principal

Choose Your Language - by Google

Economia - Ou Paga, Ou Desce

fundo-do-poçoO otimismo em relação a expectativa econômica demonstrado nas pesquisas de opinião desde meados de julho não se sustenta em nenhum ato efetivo do governo a favor da retomada do crescimento. As medidas propostas pelo Superministro Henrique Meireles estão mofando nas gavetas das Câmaras Legislativas enquanto os parlamentares esperam o fim da novela do impeachment. Novela que eles mesmos, com o auxílio luxuoso do Supremo Tribunal Federal, trataram de esticar até os limites do insuportável. Crescimento retórico é uma bolha de sabão prestes a estourar a qualquer momento, haja visto o que está acontecendo na Argentina.

Essa história de ninguém querer pagar a conta pela irresponsabilidade do Partido dos Trabalhadores nos últimos 13 anos, além de irreal, revela uma ignorância tremenda dos que defendem tal posicionamento. Desde Margaret Thatcher, ficamos cientes de que não existe dinheiro público, ou seja, o Estado não tem dinheiro e o dinheiro que ele pensa ter não é dele. O dinheiro é de quem paga impostos. Se pretendemos sair do atoleiro em que nos encontramos, é com o dinheiro dos impostos que o faremos. Se não chegarmos o quanto antes a um acordo neste sentido, a ilusão da recuperação alardeada pelas pesquisas pode nos levar de roldão a uma realidade que agora parece distante devido ao ufanismo injustificado de quem pensa que a mudança de liderança na gestão das contas por si só resolverá nossos problemas.

O Partido dos Trabalhadores não chegou ao poder com suas próprias pernas. Este é o lado ruim da democracia. As consequências dos erros cometidos pela maioria, assim como nos acertos, devem ser divididos solidariamente entre os cidadãos. No fim todos pagaremos, alguns mais e outros menos, mas pagaremos. Senão desceremos.

O agro-negócio, que a duras penas se manteve relativamente estável no pior momento, muito em decorrência da qualidade dos empreendedores que não se deixam esmorecer frente as crises provocadas pela inépcia do governo, provavelmente será o setor obrigado a contribuir mais para a solução. Eles por sua vez tratarão de redistribuir os prejuízos entre o restante da nação. Isso pode significar que existe a possibilidade real de que os alimentos cheguem ainda mais caros na mesa dos brasileiros.

Por isso não se justificam as recentes interferência do Banco Central no câmbio a fim de conter a valorização do Real frente ao dólar, visando a manutenção das exportações. Como bem diz o ditado popular, quando a farinha é pouca, há de se garantir primeiro o pirão de quem tem fome. Problema de quem apostou nas exportações. Se havemos de pagar pelos erros coletivos, é bom que comecemos pagando também pelos próprios erros. Voltemos pois para o mercado interno, antes que não haja mais mercado.

Agora que o principal responsável pelas medidas econômicas parece ter resolvido adotar as receitas de sucesso das grandes empresas para o Estado, esta fixação pela acumulação monetária (leia aqui) pode se apresentar como uma faca de dois gumes no médio prazo. O Estado não é, nem pode se comportar como se fosse, uma empresa capitalista que visa o lucro financeiro acima de tudo. O Estado é uma ficção legal, criada para representar os interesses do povo e não para atender os interesses de uns em detrimento de outros. O Estado só se torna sólido quando a nação é firme e o cidadão é fortalecido.

Essa história de que chegar no fundo do poço tem seu lado positivo porque daí não temos mais o que descer e só nos resta tomar impulso para subir, depende do que vamos encontrar no fundo do poço. Se em vez do esperado solo firme encontrarmos um lodaçal que nos afunde ainda mais isso pode ser fatal para qualquer chance de recuperação. É importante que as decisões sejam tomadas agora, enquanto ainda temos fôlego para lutar pelo nosso futuro. Que se votem logo as medidas necessárias sem titubeios irresponsáveis, amparados em raciocínios irresponsáveis.

E se houver de aumentar os impostos, que aumentem de uma vez, assumindo desde já o compromisso de rebaixá-los tão logo seja possível. Que medidas emergenciais quando chamadas de temporárias, sejam temporárias mesmo. Porque foi a credibilidade recém adquirida que nos deu este alento otimista. Se a perdermos mais à frente, tudo o que conquistarmos estará novamente perdido. Vamos pagar de uma vez esta conta. Ou pagamos, ou descemos. E aí vamos chegar no futuro a pé.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Economia - Estaleiro Mauá, Ainda Não é o Fim

Crise do setor naval é mais caótica do que possa parecer
Como você se sentiria se pudesse abrir uma empresa onde não fosse obrigado a investir em novas tecnologias? Onde não fosse preciso buscar a diversificação ou novas metodologias de trabalho, nem buscar o aperfeiçoamento da gestão empresarial, nem nada disso de que depende a sobrevivência das grandes empresas? Se você pudesse continuar a cometer os mesmos equívocos que no passado levaram empresas no mesmo ramo a fechar as portas e mesmo assim continuasse contar com crédito ilimitado no mercado, não importando o quão primários fossem os erros empresarias cometidos? E mesmo assim continuasse a ter prioridade em contratos milionários com a maior empresa estatal brasileira, sem o risco de ser incomodado pela concorrência de empresas estrangeiras? Provavelmente você julgaria ter alcançado o paraíso comercial.
Pois é exatamente assim que se sentem os donos de estaleiros navais. Não importa o que eles façam de suas empresas ou quantos erro…

Opinião - Cleptomania Não É Crime

Comecemos pelo óbvio. Embora a cleptomania não seja um crime, pode levar as pessoas a cometer um crime tipificado no código penal. Dependerá de um juiz aceitar ou não a alegação do distúrbio como atenuante, mas o fato é que, uma vez que a pessoa roube, ela cometeu um crime. Então vamos repetir para não perder o fio da meada: cleptomania não é crime, mas o ato de roubar mesmo quando provocado pela compulsão é.

Jornalismo - O "X" do Triplex

"- Fala companheiro, Tudo tranquilo?
- Você falou de um esquema...
- Ah, tá. É o seguinte... Sabe a Cooperativa? Então. Eu vou mandar construir um prédio inteiro só pra gente... Isso... pra diretoria... Em Guarujá. Você vai ficar com a cobertura, claro."
...
"É... Ninguém precisa pagar nada. Vou cobrar cota extra dos bancários. Eu dou os papéis de 'cotas' pra vocês, assino uns recibos e, para todos os efeitos, vocês são cooperados. Mas tem que declarar, senão vai sujar... Vou passar as mais baratas, só para constar. Não tem erro."