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Cultura - À La Brazil

malandro -agulhaO Jeitinho Brasileiro, especificamente o jeito carioca de ser, já foi objeto de estudo levado a sério (clique para ver) no meio acadêmico por estudiosos da psicologia. Mas, nunca antes na história deste país, se teve um laboratório experimental tão amplo quanto a oportunidade de sediar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

Poder-se-ia citar a realização da Copa do Mundo, mas lá o jeitinho ficou diluído na pluralidade cultural brasileira, onde se encontra desde que foi exportado pelos cariocas e ganhou o mundo. Aqui, no Rio de Janeiro, os pesquisadores teriam a chance de estudar o jeitinho, diretamente na origem, além de poder verificar "in loco" as consequências de seu mau uso.


O jeitinho brasileiro nasceu no âmago da boa malandragem carioca, aquela que acorda cedo e vai para o trabalho já pensando na volta. Que anda com um guarda-chuva no sol, porque conhece o inconveniente de ser colhido por uma chuva de verão. Claro que isso não é literal, mas uma referência a previdência do malandro. O bom malandro vê longe, se antecipa aos fatos e se possível tira vantagem desta capacidade. Mas se as chances não são boas, o malandro tem a habilidade extraordinária de organizar a situação de tal modo que resulte do modo previsto, reforçando assim o mito da premonição do malandro.

Quando se tem uma diversidade cultural voltada para a diversão, especialmente quando a melhor parte dessa diversão acontece á noite, ter de sair de casa na madrugada para encarar o trabalho pesado, inclusive nos finais de semana e depois estar novamente pronto para enfrentar outra maratona de eventos noturnos, como se nada tivesse acontecido durante o dia, encontra-se o ambiente propício para o surgimento do malandro. Era preciso dar-se um jeito. Ou um jeitinho, como se diz. Malandragem nada mais era do que a arte de enganar a todo mundo, fingindo que não trabalhava. Aquela capacidade de aparecer sempre impecável nos eventos, com um sorriso encantador nos lábios, muita disposição para se divertir e a felicidade estampada no rosto. Malandragem sempre foi contagiante.

Com o passar do tempo maus elementos começaram a perceber as vantagens auferidas pela boa malandragem carioca (mulheres, diversão, bebidas, mais mulheres). Pessoas se faziam passar por malandros, apareciam impecáveis nos eventos, com um sorriso nos lábios, mas não trabalhavam. Eles tinham de arrumar dinheiro de algum modo, e passaram a lançar mão de expedientes ilícitos para consegui-lo, se aproveitando-se da boa fama que até então os malandros gozavam. Foi quando malandragem passou a ser confundida com vagabundagem e o jeitinho, deturpado pela apropriação indébita, se tornou mal-visto. E o bom malandro se retirou do cenário.

Na transição entre a boa e a má malandragem surgiu uma figura icônica que é o objeto principal deste artigo.

O Malandro Agulha


A primeira vista, a referência ao malandro agulha faz pensar ao desavisado que seja uma alcunha elogiosa. Se o malandro é o cara esperto, que não passa aperto e sempre dá seu jeito, alguém poderia imaginar que o malandro agulha seja uma espécie de evolução da malandragem. Mas não é bem assim. A malandragem se degenerou, em vez de evoluir, e o malandro agulha não passa de um excerto mal ajambrado da malandragem.

Aqui se faz necessária uma explicação a etimologia da expressão. Como todos sabem, a agulha é um instrumento usado para abrir caminho para a linha, orientando o sentido da costura. Mas o uso da palavra, na referência ao falso malandro, apela para um fato corriqueiro que só um malandro de verdade atentaria. A alimentação da agulha se dá por um buraco aberto no fundo. Malandro agulha é aquele cara que parece com o malandro, age como um malandro, mas não tem a habilidade da prevenção inata do malandro. Daí que não importa o que ele arme, não consegue antever todas as possibilidades e, via de regra, acaba tomando nos fundilhos.

No Rio de Janeiro os pesquisadores encontrariam um espécime perfeito para encaixar no estereótipo do malandro agulha, com seu jeitinho peculiar de fazer sempre errado e ver as consequências de sua pseudo esperteza se voltar contra ele. Não é à toa que aquela malandragem de maus bofes, que ocupou o lugar do bom malandro, se delicia em levar vantagem nos golpes mal aplicados pelo malandro agulha, tornando ainda mais merecida a alcunha de "agulha".

Desde que o Prefeito Eduardo Paes comprou a ideia de realizar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, as coisas não tem funcionado bem da maneira como ele imaginou que aconteceriam. O caso da ciclovia mal projetada que caiu matando duas pessoas, o viaduto da Trans Olímpica que ameaça afundar, e o fato das instalações da Vila dos Atletas terem sido entregues sem estar acabadas (a obra foi aprovada por fotos), entre outros casos, tem agravado ainda mais a recepção do eleitorado em face as suspeitas de superfaturamento das obras.

Em todos os casos foram dados jeitinhos às pressas, e o Prefeito, que não é muito dado a andar alinhado, mas gosta de estar sempre com um sorriso no rosto, garante que nada disso irá influenciar no resultado final das Olimpíadas. Tomara que pelo menos desta vez a total falta de previdência e a incapacidade de antever o futuro que caracteriza o prefeito não influenciem nesta previsão.

A cada vez que o prefeito é chamado a se explicar sobre os problemas, ele solta frases que tem o efeito contrário do pretendido, frases que vem se somar às que ele disse no episódio das gravações de conversas com o ex-Presidente Lula.

Para justificar algumas das pérolas que disse, o prefeito apelou para o seu jeito despojado de ser carioca. No que não deixa de ter razão. O malandro agulha é mais uma característica exclusiva que nasceu no berço da malandragem no Rio de Janeiro, e agora está sendo exportado como exemplo para o mundo. Um jeito bem pouco louvável de ser carioca, e do qual os verdadeiros malandros não se orgulham nem um pouco.

Comentários

  1. Pior é quando vários malandros poderosos se juntam na praia para elocubrarem projetos de mega-corrupção e saque aos cofres da nação, estendendo sua malandragem aos outros estados da nação...
    Na minha visão continuamos ná prática com um Rio de Janeiro imperial e corrupto e onde a nova "nobreza" estuda maneiras de espoliar todos as outras provincias. Brasília não passa de um ponto de reunião e refúgio seguro das pressões populares indesejáveis !!

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    Respostas
    1. Acredito, e torço sinceramente para, que esta "classe" de malandros esteja em vias de extinção, ou que pelo menos caminhem para o ostracismo, na medida em que a população começa a se conscientizar de seus direitos e passa a entender que as coisas não estão fadadas a ser do que são.

      Um antigo ditado da malandragem nefasta diz que o [mau] malandro (leia-se o vagabundo que se diz malandro) só sobrevive por que existem os otários.

      Estamos deixando de ser otários.

      Excluir

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