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Comportamento - Humanofobia

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Machões batem em gays. Homens humilham mulheres. Islâmicos matam cristãos. Religiosos amaldiçoam ateus. E assim os linguistas tentam se adaptar aos neologismos que surgem a cada dia. Homofóbicos, ginófobos, cristofóbicos, ateofóbicos... - são tantas as designações, tão novas que nem são ainda reconhecidas pelos corretores automáticos de textos, mas que se tornam rapidamente populares.

Thomas Huxley quando referiu ao uso dos rótulos, falando dos "ismos" usados para definir esta ou aquela vertente do pensamento, apelou a parábola das raposas que precisam ter uma cauda de raposa para se sentirem raposas. Exibir uma cauda, segundo Huxley, nos tornaria pertencentes, inseridos num contexto cultural que, se nos identifica, também nos diferencia uns dos outros.

Ao passo que os rótulos assumidos podem nos causar uma prazerosa sensação de pertencimento, a paradoxal necessidade de distinção, de se sentir diferente, nos faz rejeitar todos os demais rótulos que usamos para definir aos demais que sejam aparentemente diferentes de nós. E junto com os rótulos e o que eles significam rejeitamos também as pessoas definidas por eles, ou melhor, definidas por nós.

Há um equívoco nas recentes definições "neofóbicas" que talvez possa ser explicado a partir da observação de uma fobia real. Alguém que sofra com a aracnofobia, por exemplo, poderia reagir maquinalmente, pegando uma sandália, ou um pedaço de pau, para matar a aranha, mesmo que o pobre aracnídeo não tenha esboçado nenhuma ameaça. A pessoa que tem medo de aranhas pode mata-las apenas porque elas existem, sem que encontrem, ou sequer busquem, uma explicação racional para esta violência. Por extensão seria presumível que a reação violenta e injustificada que algumas pessoas demonstram contra a simples existência de um determinado grupo se deva a algum tipo de fobia. Daí os neologismos.

Mas a realidade não é bem assim, tão óbvia.

Há machões que batem em gays, mas também batem em outros machões, agridem mulheres, velinhas, crianças, qualquer um que se mostre vulnerável. Também não é raro, embora seja incomum, que homens declaradamente gays agridam fisicamente machões que se mostrem mais fracos que eles. E gays capazes de fazer frente a um machão, também batem em mulheres, em velinhas, e até em outros gays. O número de vídeos que mostram mulheres agredindo a outras mulheres também tem aumentado nas redes sociais. Cristãos podem hostilizar islâmicos assim como acontece o contrário. Um assaltante não escolhe as pessoas que vai assaltar pela orientação sexual, mas se ele mata um gay isso pode facilmente ser confundido com um ato homofóbico, aumentando as estatísticas.

A verdade é que somos potencialmente intolerantes, e esta necessidade de discriminar aos outros atribuindo-lhes rótulos nos prepara para exercer nossa intolerância latente. Mas o comportamento intolerante e violento entre as pessoas na maioria dos caso não é exclusividade de um determinado grupo contra outro. Não que não existam casos específicos, mas estão longe de ser a causa das ações violentas na maioria dos casos.

Atribuir rótulos definitivos pode mascarar as reais razões por trás do comportamento violento de algumas pessoas. Cristãos, islâmicos, machões, gays, homens e mulheres, todos podem ser designados por uma só etiqueta comum a todos eles. São todos humanos. Seres humanos fazem coisas reprováveis contra outros seres humanos o tempo todo. E nem sempre as motivações são tão óbvias quanto queremos fazer parecer.

No entanto podemos vislumbrar o paradoxo da distinção em muitos dos casos. Querer ser igual o bastante para se sentir enturmado e ao mesmo tempo se sentir diferente para julgar que aquele grupo não merece o esforço. Na medida em que alguns anseiam desesperadamente por ser aceitos, nem sempre estão dispostos a aceitar as diferenças nos outros.

Muitas vezes a razão de um ato violento contra outra pessoa pode estar na mera ameaça de se sentir rejeitado, seja a ameaça real ou não, tanto quanto pode estar na vontade consciente de rejeitar aos que lhes pareçam diferentes demais para aceita-los. Imaginar-se sendo julgado pelos mesmos parâmetros com que julga aos outros pode ter um efeito devastador na autoestima de alguém. Seria como olhar num espelho e detestar o que vê. E sentir o desejo irresistível de quebrar o espelho. Há seres humanos que detestam ser humanos, pelos mais diferentes motivos.

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