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Jornalismo - Espantaram o Mosquito

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Estão agora discutindo se o triplex sito à rua General Monteiro de Barros, 658 no Guarujá pertencia ou não à família do ex-presidente Luis Inácio. E eu respondo sem pestanejar: está claro que não. O triplex não pertence à família Lula da Silva.

Se em algum momento a empreiteira teve a intenção de repassar a escritura do luxuoso triplex para o nome do ex-presidente ou o de sua esposa, isso não vai mais acontecer, graças a precipitação infantil de nossos investigadores. E, eu repito, se é que a empreiteira teve algum dia a intenção de oficializar a posse de um apartamento tão acima do padrão para um ex-presidente da República. Não é de todo inconcebível a possibilidade de que a cobertura continuasse pertencendo oficialmente a empreiteira, para todos os fiscos. O que só agravaria a situação do ex-presidente, quando e se ele se mudasse com a família.
Mas ele não vai mais morar lá.


Ocorre que o jornalismo investigativo no Brasil ainda engatinha. E no longo caminho ainda a ser percorrido, tem muito o que aprender com os melhores do mercado internacional. O jornalista não sabe negociar a exclusividade da notícia com as autoridades policiais e muito menos entende a necessidade do trabalho colaborativo entre a polícia e a imprensa nos casos de grande repercussão. Pelo contrário, parecem competir entre si para ver quem descobre primeiro as coisas mais óbvias.

A imprensa brasileira é movida a escândalos, e pouco afeita a apuração final da verdade. A liberdade de expressão garante ao jornalista o direito de publicar a notícia. A polícia que dê seu jeito de apurar as informações parciais publicadas às pressas para vender revistas e apresentar as devidas provas. Não entendem o quão difícil se torna o trabalho policial depois de ter sido desmoralizado por um jornalista iniciante. Sim, porque a publicação precipitada de informações que possam ainda estar sob investigação fazem parecer que a polícia não está fazendo seu trabalho. E em resposta a polícia acaba por se precipitar também, para mostrar a opinião pública que não foi passada para trás por um jornalista. E assim se cai num círculo vicioso de atropelos de parte a parte.

Crédito da imagem - Revista IstoÉ
O caso do apartamento do Guarujá é bastante interessante no sentido de demonstrar bem este fenômeno. Já em dezembro de 2014 começaram a pipocar na imprensa convencional as ilações sobre a posse de um luxuoso triplex no Guarujá por parte da família do ex-presidente. Até hoje nunca ficou provada a propriedade do apartamento. Não há uma escritura no nome de ninguém da família Lula da Silva.

Será que os jornalistas se deram ao trabalho de pesquisar no cartório da cidade o registro de bens imóveis para verificar a propriedade do apartamento antes de publicar com estardalhaço que ele pertenceria ao ex-presidente? A polícia provavelmente o fez e adivinhem. O apartamento pertence oficialmente a construtora. É o que diz a escritura. Ponto final. Se havia a intenção de se cometer alguma irregularidade, os implicados tiveram um ano inteiro para encobrir seus rastros, pela precipitação dos jornalistas.

Não digo que esteja tudo perdido e, se não estiver, será graças a quase certeza da impunidade e a confiança na incompetência dos investigadores, tanto de jornalistas como de policiais, que deixa os praticantes de malfeitos descuidados.

Apesar das notáveis inconsistências no discurso da defesa, ainda continua muito difícil desvincular a propriedade do imóvel da construtora e associá-lo de alguma forma ao suspeito. As provas colhidas até agora são circunstanciais e, assim como são basicamente apoiadas em retóricas testemunhais na maioria dos casos, são facilmente rebatidas pela retórica contraditória de um bom advogado.

A questão da propriedade do imóvel parece levar inexoravelmente a um beco sem saídas. Se não fosse pela colaboração inestimável da defesa do ex-presidente, eu diria mesmo se tratar de um caso perdido. Ainda bem que o advogado da família Lula da Silva resolveu esclarecer alguns pontos essenciais à investigação. Não se trata da propriedade do triplex. Aliás nunca se tratou disso.

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O caso com o qual a polícia está lidando agora é a perigosa, além de suspeita, proximidade de um ex-presidente da República com empreiteiros que tinham e tem contratos de prestação de serviços milionários com os governos Federal e Estadual, nas unidades federativas governadas por aliados políticos da Presidência. E é isto que os investigadores estão a ponto de provar.

Senão vejamos.

Com a ajuda do advogado em defesa do ex-presidente, ficamos sabendo que sim, sempre houve o interesse, ao menos por parte de Dona Marisa Letícia, em adquirir um imóvel no prédio da rua General Monteiro de Barros, 658. E que a partir da entrada da empreiteira OAS no negócio o ex-presidente passou a compartilhar do mesmo interesse, mas não pelo mesmo apartamento 141. Agora o ex-presidente estava interessado no triplex 164-A. Com base no interesse demonstrado por Luís Inácio, o próprio dono da empreiteira deu início uma séria de reformas que viriam a triplicar o custo inicial do apartamento. Isso ele fez, segundo alegação, por iniciativa própria sem exigir sequer um compromisso de compra e venda, que lhe desse as mínimas garantias de que não perderia o dinheiro investido. Afinal estamos falando de milhares de reais.

Milhares de reais que ele definitivamente perdeu, quando o ex-presidente Lula, pressionado pelas investigações, desistiu da compra do apartamento luxuosamente decorado às custas da empreiteira. Até o dinheiro que já estava depositado na forma de cotas da Cooperativa está sendo devolvido ao Luis Inácio. Convenhamos que perder dinheiro não é um atributo comum entre empreiteiros. Quem já teve a oportunidade de se envolver num negócio imobiliário por mais modesto que fosse, sabe do quanto os incorporadores se cercam de garantias, quase ao ponto de inviabilizar o negócio, só para evitar o risco de um prejuízo.

Então como um empresário tão experiente foi cometer um erro tão primário?
O que justifica tamanho desprendimento por parte da construtora? Em troca de quê?
Eis as questões que precisam ser respondidas doravante.

Em dezembro de 2014 o jornalismo investigativo cometeu a imprudência de espantar o mosquito. Mas os mosquitos sempre voltam. Mas nem sempre pelos motivos que imaginamos.

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