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Segurança - A Vida Por Um Fio

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Não me lembro o ano. Foi por volta de 2003, 2004.
Eu ainda esperava a oportunidade pelo meu primeiro embarque na Transpetro como marinheiro mercante. Estava na pedra e trabalhava com amigos como pintor de paredes para garantir meu sustento.

Aconteceu na Rua Júlio de Castilhos, no Leme, próximo à Avenida Rainha Elizabeth. Nós chegamos para mais um dia de trabalho, muito cedo, por volta das sete horas da manhã, descemos do carro e pretendíamos tomar um cafezinho na esquina enquanto o amigo que dirigia (amigo meu e de meu pai, o Sargento Fuzileiro Naval Macário, já falecido) procurava um lugar para estacionar.



Foi quando me dei conta de um certo burburinho que acontecia a alguns metros de onde desembarcamos. Pessoas se amontoavam numa rodinha e não dava para ver direito o que estava acontecendo.

Curioso que sou, me aproximei e vi um senhor de idade caído na calçada, um amigo dele também de idade, desesperado, e as pessoas em volta sem saber o que fazer.

Não sei o que me deu na hora. Eu havia praticamente acabado de concluir o curso de primeiros socorros, uma exigência para a formação para marítimo, e eu hoje admito que fiz tudo errado. Se eu seguisse o que tinha aprendido no curso, nem teria tocado naquele senhor. Mas o desespero do amigo dele me tocou de um jeito que não poderia agir de outra maneira.

Me acerquei e tomei conta da situação pedindo que as pessoas se afastassem um pouco. Verifiquei que ele não respirava e que estava com o pulso muito fraco, quase imperceptível. Imediatamente afrouxei as roupas e o cinto do senhor e observei que ele usava dentadura daquelas inteiras. Retirei e entreguei ao amigo dele para que guardasse.

Comecei então os procedimentos de ressuscitação que havia aprendido no curso da Cruz Vermelha. Respiração boca a boca e massagem cardíaca. Em um dado momento uma das pessoas, um garoto de seus vinte e poucos anos, perguntou aos demais o que eu estava fazendo ali e se eu era médico. Lembro de ter levantado a cabeça e ter disparado um olhar tão duro em direção ao rapaz que ele desviou o olhar aparentemente envergonhado.

Na verdade me dei conta de que ele estava certo. Se aquele senhor não se recuperasse eu estaria envolvido numa situação difícil. Eu poderia ser acusado de ter precipitado a morte daquele homem por causa de meus procedimentos.

Felizmente, após os mais longos minutos de minha vida o senhor tossiu e respirou muito fundo, como quem está mergulhado e sente que aquela é sua última chance de buscar o ar.
Eu quase chorei. Mantive a calma e perguntei ao senhor o nome dele e onde ele morava. Ele me respondeu, mostrando que estava plenamente consciente.

Alguém pediu uma cadeira num bar próximo, me ajudaram a levantá-lo e ele ficou lá sentado, esperando o socorro da Golden Cross, que segundo o amigo dele já teria sido chamado.

Eu nunca contei isso para ninguém de minha família. Além do Macário, somente outro amigo que também trabalhava conosco sabiam do que aconteceu naquela manhã.

Estou contando agora porque me dei conta de que, se eu morresse amanhã, ninguém mais além do Jorge, o eletricista que estava com a gente, ficaria sabendo disso.

Eu salvei a vida de um homem. Era um senhor de idade avançada que talvez hoje já tenha falecido, assim como meu amigo Macário, que era aparentemente muito mais saudável que ele, já faleceu.

Sim senhores! Eu tenho orgulho de já ter feito algo assim tão incrível por alguém. E eu precisava contar isso.
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Esta é uma história real. Há menos de três anos participei de uma reciclagem na Cruz Vermelha de Niterói onde tomei conhecimento dos novos protocolos de segurança a ser seguidos por todos os socorristas. São pensados para a segurança das pessoas envolvidas. Os protocolos levam em conta questões atuais como o alto risco de contaminação. Sobre o contato com saliva, sangue e outros contaminantes. De acordo com os novos protocolos eu teria assumido riscos que hoje seriam condenáveis.

Nos dias de hoje a ação do socorrista está praticamente restrita a preservação da área dos acidentes até a chegada do socorro médico especializado e em garantir a segurança de outras pessoas que por desconhecimento das técnicas de salvamento possam vir a se envolver diretamente na cena dos acidentes, pondo em risco a própria vida e a de terceiros, inclusive causando o agravamento das condições dos acidentados.

Recomendo fortemente aos que tiverem oportunidade que façam um cursos de primeiros socorros em uma escola especializada e recebam uma habilitação com reconhecimento oficial.

Que cumpram os protocolos e que, numa situação real de emergência, reajam com calma e inteligência, obedecendo aos critérios recomendados.

Mas que, acima de tudo, sigam seus corações e avaliem com segurança cada ação a ser tomada. Lembrem-se sempre que não se trata de alimentar o seu ego ou de provar qualquer coisa aos outros. Vidas podem estar em jogo, e suas decisões é que vão fazer a diferença entre a vida e a morte de pessoas.

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