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Economia - Mais do Mesmo

LevyXBarbosaA melancólica saída do Doutor Joaquim Levy do Ministério da Fazenda não chega a ser uma surpresa para o mercado. A saída em si, apesar de ser tão recente (foi agora à tarde, 18/12, depois do fechamento das operações da bolsa) já está plenamente absorvida pelo mercado, uma vez que a expectativa de sua saída vem sendo alvo de  especulações há meses. O que realmente preocupa o mercado é seu substituto. Por insólito que possa parecer, não é a formação acadêmica do atual Ministro da Fazenda e ex-Ministro do Planejamento que deixa o mercado de orelhas em pé. Até pelo contrário. Se dependesse apenas da análise de seu currículo, o também Doutor Nelson Henrique Barbosa Filho estaria aprovado com louvor.

O Nelson Barbosa  tem defendido medidas com um viés desenvolvimentista, isto é, que atribui o equilíbrio da economia ao gasto público, aumentando o protagonismo do governo nos setores produtivos, enfim, tudo o que vem sendo feito até agora e que evidentemente não o aval dos analistas de uma maneira geral. O atual Ministro da Fazenda parece atrelar suas opiniões econômicas muito mais à sua convicção ideológico-partidária do que ao frio cálculo das planilhas econômicas e este é o ponto preocupante. Embora a teoria defendida por Nelson Barbosa tenha naufragado em vários países da América e da Europa, inclusive no Brasil como mostram os pífios resultados dos últimos 13 anos, aparentemente ele acredita poder obter êxito onde todos falharam.

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Joaquim Levy por outro lado prescrevia uma retirada estratégica do Ministério da Fazenda da frente de combate direto da economia, permitindo que o mercado procurasse os caminhos por si mesmo, auto-regulamentando-se, enquanto o governo buscaria condições de exercer um poder moderador, com a autoridade de quem tem o cacife necessário para intervir, mas apenas nos casos de flagrantes excessos. Este plano evidentemente não era bem visto pela cúpula do Partido dos Trabalhadores que construiu toda sua estrutura de manutenção do poder no modelo desenvolvimentista, sempre escolhendo quem seriam seus campeões em detrimento dos demais setores da economia.

Ora, se o governo abre seus cofres para fazer investimentos pesados num determinado setor produtivo, garantindo-lhes condições especiais de competitividade, é lógico que esperasse em contra partida doações vindas destes setores para o partido do governo na época das eleições, doações que garantiriam a permanência deste governo no poder e por sua vez a continuidade dos investimentos dos quais os empresários do referido setor passaram a depender criando um círculo vicioso.

Esta interdependência criada a partir de um foco centrado no poder, tendo os interesses nacionais em segundo plano, passa a ser um grande problema do qual fica difícil de se desvencilhar ao longo do tempo. Ao passo que um governo obcecado pelo poder corre o sério risco de se tornar refém das doações de campanha, permitindo uma maior influência dos grandes setores da economia, que se tornaram grandes não pela capacidade administrativa de seus agentes, mas pela ajuda financeira do governo, temos por outro lado empresários que não estão preocupados com a qualidade de seus produtos e serviços, nem com a modernização administrativa, uma vez que seu sucesso é garantido pelos investimentos vindos do governo.

A articulação política que faltou, e foi muito cobrada, ao ex-Ministro Joaquim Levy, sobra no atual Ministro Nelson Barbosa, dada a sua participação ativa nas principais ações do governo desde de que o Partido dos Trabalhadores ascendeu ao poder em 2003. E este é o grande perigo vislumbrado pelo mercado de uma maneira geral. Articulação política esta que ficou comprovada a cada derrota que ele infligiu ao seu antecessor e pode facilitar a implantação das ideias de Nelson Barbosa junto ao Congresso nos próximos meses.

Não é exagero dizer que, na prática, o então Ministro do Planejamento tratou de sabotar cada tentativa de Joaquim Levy liberalizar a economia, usando de sua influência tanto com a Presidente quanto junto aos líderes das bancadas governistas na Câmara e no Senado.

Aliás, esta atitude de puxar o tapete de Ministros da Fazenda já é antiga no histórico de Nelson Barbosa, o que faz pensar que, até por sua formação acadêmica, sempre foi de seu interesse ocupar a pasta da Fazenda. Já em 2011 quando fazia parte da equipe econômica como Secretário Executivo da pasta (que equivale ao cargo de Vice-Ministro da Fazenda) do então Ministro Guido Mantega, Nelson Barbosa veio por diversas vezes à público contradizer o chefe em pontos importantes para a condução econômica do governo, culminando num desentendimento que levou à saída de Nelson da equipe em junho de 2014, pouco antes do próprio Guido Mantega dar lugar a Joaquim Levy. Evidentemente a demissão precoce interferiu na pretensão do Nelson Barbosa suceder ao Guido Mantega.

Do ponto de vista da maioria dos analistas econômicos a chegada de Nelson Barbosa ao Ministério da Fazenda perspectivas não são nada boas. E a não ser que o Ministro prove ser capaz de contornar os problemas que outros simpatizantes de seu cabedal ideológico não conseguiram podemos esperar um aprofundamento da crise econômica nos primeiros meses de 2016.

Para fechar este artigo, vale destacar a temerária declaração do Chefe da Casa Civil esta manhã:
"Há um equívoco dos que fazem a leitura sobre os caminhos do governo da Presidenta (sic) Dilma. Quem banca a política econômica não é o Ministro da Fazenda. Quem banca a política econômica é a Presidenta (sic ultra) da República e ela convoca o Ministro para cumprir."
Não dá para dizer o que poderia ser pior.

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