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Religião - Meandros da Fé

"Do mundo são, por isso falam do mundo, e o mundo os ouve." 1João 4:5

Islã e preconceito
Os atentados acontecidos na França semana passada (no dia 13/11), embora seus perpetradores usem indevidamente a égide da religião para justificá-los, não é um problema religioso e sim político, e como tal merecem um artigo à parte sob o verbete da Política. É objeto deste artigo a reação que muitos tem manifestado nas redes sociais desde os atentados. Há um sentimento de profunda revolta no ar. Reações as mais diversas passeiam entre a contida repreensão e a maldição impregnada de ódio vingativo.
É muito difícil à uma pessoa comum manter-se neutra sobre o assunto.


Alguém lembrou de uma profecia bíblica sobre o fim dos tempos no antigo testamento, da qual há uma interpretação que leva em conta profecias supostamente paralelas contidas no Alcorão remetendo ao surgimento de um tal "califado", cuja alegada referência levaria ao Estado Islâmico e ao Anti-Cristo. Assim diversos grupos passaram a se declarar convencidos de que estamos vivendo os tempos profetizados e que esta certeza requer uma postura ativa por parte da humanidade. Há os que defendam este suposto conhecimento prévio dos fatos, como um sinal de que os cristãos deveriam estar atentos para poderem reagir à altura dos acontecimentos e evitar a catástrofe que significaria a vinda do Anti-Cristo ao mundo.

Ora, a fé é condição indiscutível para qualquer que se apresente como cristão. O cristão deve não apenas acreditar que o Deus existe, mas que é também o recompensador daqueles que o buscam segundo o que está previsto nas profecias. Porque, segundo a crença, a profecia não tem origem na vontade humana, mas homens falaram em nome do Deus impelidos por seu espírito e o Deus não pode mentir.

Constam nas biografias atribuídas aos discípulos mais próximos de Jesus que, depois de descrever um quadro vívido de muito sofrimento para a humanidade no chamado "fim dos tempos", Jesus explicaria que isto seria inversamente um sinal de alegria para os cristãos, porque significaria a proximidade da redenção universal, trazida pela justiça do Deus. Então, do ponto de vista de Jesus, o cumprimento das profecias seria motivo de regozijo entre os que acreditam e não para a reação violenta contra o agressor. Jesus completa seu discurso advertindo aos cristãos que seus seguidores "neste mundo terão tribulações, mas [devem ter] bom ânimo" visto que "a hora é chegada".

A reação de muitos cristãos nas redes sociais é contraditória com o que aconselha a mensagem proferida nos últimos dias de vida de seu mentor espiritual, pouco antes de passar pelo mais doloroso martírio já descrito em um relato antigo. Jesus alegava saber de tudo pelo que haveria de passar, porquanto se tratarem também do cumprimento de outras profecias ainda mais antigas, bastante anteriores ao seu próprio nascimento, e no entanto mantinha-se sereno mesmo quando falava de tais coisas.

No entanto havemos de admitir que seja muito difícil às pessoas comuns, das quais não se dizem que foram concebidas sem intervenção humana, nem que sejam capacitadas a transformar água em vinho ou a de andar sobre as águas do mar revolto, terem uma atitude passiva ante a fatalidade de seu extremo sofrimento ou o de seus entes queridos, mostrando uma força que vá além da compreensão humana. Os últimos acontecimentos ao contrário tem despertado um sentimento de raiva incontida, que leva a manifestações explícitas de ódio por parte de pessoas tidas até então por pacíficas.

Vencer aos acontecimentos do mundo com resignação e alegria, enquanto persevera na divulgação de uma mensagem de amor e compreensão ao próximo, talvez seja o maior desafio à fé cristã desde que aquele profeta hebreu foi barbaramente assassinado pelos donos do mundo de então em nome da manutenção de uma certa ordem mundial, que ao fim sucumbiu dando lugar uma nova ordem onde os novos donos do mundo conseguem alcançar requintes de crueldade ainda maiores do que os de seus antecessores.

Parece certo que a crescente onda de violência, com os requintes de crueldade que tem por finalidade não apenas matar, mas causar o pior sofrimento possível antes da morte, como os seres humanos impingem aos seus semelhantes num comportamento único dentre todas as espécies conhecidas, acabará por fatalmente causar a extinção da espécie humana, mais cedo ou mais tarde. Nenhum predador na Terra pode ser mais efetivo contra o ser humano do que seu semelhante. Todas estas preocupações estão inseridas no contexto de um mundo do qual os cristãos se esforçam em repetir, assim como seu Cristo, que não fazem parte.

Se apenas um pequeno grupo de pessoas comuns fosse capaz de se mostrar feliz, confortando uns aos outros não por um sentimento fingido, mas com uma sinceridade que saltasse aos olhos de todos os que os observassem, mesmo em face à violência à qual grande parte dos cristãos modernos tem sido submetida nos últimos mil e quatrocentos anos desde que um movimento de dominação política violento passou a percorrer o mundo a partir do oriente até o ocidente, atacando e martirizando a tudo e a todos em seu caminho. Se ao menos pudéssemos ver que é possível resistir com alegria e paz às atrocidades que o mundo nos impõe indistintamente.

Quem sabe ainda passemos todos a crer, como se todo olho pudesse ver, que a sobrevivência humana na Terra num ambiente de solidariedade mútua é possível, ainda que não causada pela vontade destrutiva do homem, mas por uma vontade superior. Uma vontade capaz de inspirar nos homens tamanha demonstração de fé, uma certeza ainda não observada, de que o espírito que possibilite tal força e desprendimento nos homens quer que todos na humanidade se salvem.

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