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Economia - Síndrome de Estocolmo

“Fui professora em uma escola da Samarco durante 9 anos. Foram os melhores anos de trabalho da minha vida”

~ Leide Oliveira, 50 anos, Professora
#somostodossamarco
Dois assaltantes invadem um banco em Estocolmo e mantém quatro pessoas reféns durante seis dias. Ao contrário do que se poderia esperar, as vítimas recusam a ajuda da polícia, usam seus corpos como escudo para protegê-los e culpam ao Estado pela situação. Uma das vítimas vai ao extremo de criar um fundo para ajudar aos assaltantes nas despesas judiciais, após terem sido libertadas. A partir deste episódio ocorrido em 1973 observou-se que este estado de dependência psicológica onde as vítimas desenvolvem simpatia, ou mesmo um sentimento de amor ou amizade, para com seus algozes era mais comum do que aparentou inicialmente, e a psicologia passou a chamar este comportamento particular de "Síndrome de Estocolmo" em homenagem ao episódio que deu origem aos estudos.  (Mariana Araguaia - "Síndrome de Estocolmo"; Brasil Escola)

Centenas de moradores se reuniram à noite do último dia 17/11, terça feira, na praça de Mariana, para manifestarem apoio a mineradora Samarco. A cidade de Mariana foi a das principal, mas não a única, vítima do desabamento das barragens de contenção dos dejetos lamacentos oriundos da atividade de mineração realizados pela Samarco no Vale do Rio Doce. O grave incidente, que causou a morte de várias pessoas, deixando centenas de desabrigados, no que pode ter sido o maior desastre ecológico da história do país, aparentemente  comoveu as pessoas da cidade no sentido contrário daquele manifestado nas redes sociais pelos que de algum modo tomaram conhecimento da tragédia. Enquanto surgem manifestações de repúdio contra as mineradoras vindos de diversas regiões, suas principais vítimas acorrem em solidariedade, pela continuidade de suas atividades.

Este comportamento em que trabalhadores e familiares são vítimas da má gestão de grandes empresas e ainda assim continuam a apoiar os descalabros praticados por seus administradores acontece em todas as partes do país. Especialmente em áreas desprovidas de infraestrutura, onde uma empresa ou um grupo restrito monopoliza uma determinada atividade econômica, geralmente com o favorecimento do governo. Nessas áreas prevalece o raciocínio do "ruim com ele, pior sem ele", muito comum em relações destrutivas onde as vítimas não vislumbram alternativa possível senão aceitar em favor da própria sobrevivência.

Recentemente em Niterói, principal polo da construção naval do Rio de Janeiro, 3.500 trabalhadores que eram vítimas de exploração com reiterados descumprimentos dos acordos coletivos, tendo a conivência do sindicato e o apoio irrestrito do governo. Trabalhavam muitas vezes em condições insalubres muito abaixo dos limites aceitáveis devido a falta de investimentos da empresa no setor e foram sumariamente demitidos sem receber direitos trabalhistas.

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Esses milhares de desempregados hoje frequentam as redes sociais em busca de um fio de esperança, qualquer indicação de que a empresa vai reabrir as portas para que possam voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Eles não entendem que eram mera massa de manobra nas mãos de especuladores sem escrúpulos, que os usavam como reféns num sistema de financiamento espúrio que servia apenas para o enriquecimento dos patrões.

Quando as investigações sobre desvios de verba no setor obrigaram ao governo a fechar as torneiras do crédito liberado sem garantias, eles simplesmente cumpriram as reiteradas ameaças e demitiram a todos, sem nenhuma satisfação, deixando inclusive de cumprir os contratos vigentes, causando grandes prejuízos a seus clientes, fornecedores, ao município e ao Estado.

Infelizmente os sistemas de investimentos equivocados do governo, sem um planejamento voltado para o desenvolvimento de polos industrias e comerciais que possam dar alternativas aos trabalhadores e o favorecimento de alguns setores em detrimento de outros fomentam esta dependência que acaba por criar as condições que fazem aflorar comportamentos próximos, ou virtualmente iguais ao que as vítimas demonstram nas relações com seus algozes na Síndrome de Estocolmo.

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