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Economia - Fim do Plano Real

A base fundamental do Plano Real foi a credibilidade 

Real sem credibilidade

Credibilidade! Uma palavra muito debatida ultimamente. As pessoas precisam acreditar que você seja capaz de cumprir aquilo que promete. Quando você abre uma conta em um banco por exemplo, você precisa mostrar que é a pessoa que diz ser e que reside onde diz que mora. Mas principalmente, precisa provar que ganha aquilo que declara em termos financeiros, afinal bancos vivem de guardar o dinheiro dos outros e, se não houver dinheiro para guardar, um banco não se interessará por você. Não tendo dinheiro em um banco, dificilmente um banco lhe dará algum crédito. O tamanho do crédito que você pode ter vai depender de quanto você pode guardar no banco.
Neste contexto, o que seria crédito afinal? Nada mais do que acreditar que o potencial indicado pela penca de documentos que você apresentou ao abrir a conta é verdadeira.
É redundante mas, para lhe dar crédito as pessoas precisam acreditar em você.


O Plano Real foi formulado em cima da credibilidade de seus autores. Toda a base do Plano Real é essencialmente política e não econômica. Quando o Plano Real foi implantado, o que aconteceu foi simplesmente a troca da  indexação da economia pela inflação por uma indexação a partir do Dólar. Passou-se inicialmente a ideia de que cada Cruzeiro Real nosso poderia ser equiparado a cada centavo do Dólar, independente da inflação medida pelos índices oficiais de monitoramento da economia. Restava provar este ponto de vista. De uma maneira bastante simplista, o Governo só precisava convencer ao mercado internacional de que nosso país era rico o suficiente para sustentar a paridade do Dólar com a moeda nacional.

Ora, nós sabemos que o Brasil é um país riquíssimo em diversos setores da economia. Mas os países que tem relações comerciais conosco duvidam, não da nossa riqueza, mas da nossa capacidade em administrá-la. Para eles, não importa o quão rico sejamos, nossa tendência natural é de ser perdulários, do tipo que gasta dinheiro indiscriminadamente e que um dia, mais cedo ou mais tarde, estaremos em dificuldades financeiras porque gastamos demais com coisas sem importância, como o herdeiro de uma grande fortuna que decide gastar o dinheiro da família como se nunca pudesse acabar e não houvesse amanhã.

Mas no caso de uma nação do tamanho do Brasil há sempre um amanhã. Existem milhões de pessoas que dependem daquilo que o governo faz com as nossas riquezas. As ações dos governantes, no modo como encaram a riqueza, acabam por refletir na vida de todos nós.

O Plano Real veio para garantir que a partir de então o governo só gastaria o essencialmente necessário para o funcionamento da máquina administrativa e que quaisquer gastos fora desta necessidade seriam objeto de estudos exaustivos sobre a disponibilidade dos recursos. E o mercado acreditou nisso.

Mas como se fez para garantir ao mercado que haveria um compromisso com a austeridade nos gastos do governo?

Não havia uma fórmula mágica. O governo teria de sinalizar que estava disposto a seguir esta diretriz econômica com responsabilidade, desse no que desse. Começou então por cortar os gastos excessivos e por abrir mão de monopólios que de qualquer maneira, fossem administrados por quem fosse, trariam benefícios à população, quem sabe até com alguma vantagem. O governo permitiu a exploração de mercados até então tidos como privilégio exclusivo do Estado.

Além de demonstrar o comprometimento com o plano de desoneração do Estado, as privatizações serviram para formar o caixa necessário para a segunda etapa do plano: mostrar que o Brasil tinha uma previsão de recursos suficientes para que nossa moeda pudesse se manter equiparada ao Dólar por tempo indeterminado. Tudo isso era base de nossa credibilidade junto ao mercado.

O que o Partido dos Trabalhadores fez desde o começo foi renegar todas as promessas feitas ao mercado durante a implantação do Plano Real. Começou por se desfazer do caixa acumulado com muito sacrifício, ao pagar cedo demais nossa dívida com o FMI. No entanto nossas reservas, ainda que fossem suficientes para manter a credibilidade do plano, não davam para o pagar uma dívida que se arrastava ao longo de décadas. Então o PT completou o restante emitindo títulos públicos, aumentando em muito a nossa dívida interna. O país deixou de dever a um dos agentes externos, mas em contrapartida passou a dever ao próprio país, na medida em que o dinheiro emitido para o pagamento da dívida bem poderia ter sido usado em investimentos internos, que consolidassem os planos de crescimento. Como se alguém pudesse pedir dinheiro emprestado a si mesmo.
Depois, mesmo sem ter de onde tirar o dinheiro, veio o aumento de gastos do governo sem que houvesse qualquer estudo anterior sobre a possibilidade deles existirem.

Margareth Tatcher ensinou que governo nenhum no mundo produz riqueza. Os governos vivem daquilo que arrecadam de seus cidadãos. E que todo governo deve ter responsabilidade sobre aquilo que faz com o dinheiro que afinal não é dele, é do povo que paga seus impostos na esperança de receber em troca algum benefício. O contribuinte paga impostos por uma questão de credibilidade.

No entanto o PT ousou desafiar esta máxima, de que nenhum governo produz riqueza por si mesmo, tentando usar nossas empresas estatais para provar o contrário. Esquecendo que, qualquer empresa para se manter competitiva no mercado, precisa reservar uma parte de seus lucros para reinvestir em novas tecnologias e melhorar seus serviços, o PT usou e abusou dos lucros obtidos pelas estatais. Foi assim que a Petrobrás virou a menina dos olhos do atual partido no governo, e foi assim que ela foi arrastada de roldão para uma crise sem precedentes na história.

Por maior e mais rentável que seja uma empresa ela não pode arcar sozinha com a responsabilidade de sustentar um país com mais de duzentos milhões de habitantes, especialmente quando se gasta desbragadamente, sem um limite imposto pela razão.
Mas o PT apostou que a Petrobrás com seus campos de sal poderia, e vendeu caro esta ideia.

A atual situação econômica da Petrobrás e do país como um todo faz o mercado suspeitar fortemente de que o governo atual seja incapaz de cumprir aquilo que promete. E é esta falta de credibilidade, a falta da mesma credibilidade que estabeleceu o Plano Real, que decretou o fim de um plano econômico nacional que tinha tudo para dar certo.

O Plano Real tem tudo, menos credibilidade, desde há alguns anos.

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