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Política - O Cérebro por Trás do Esquema

Com um atraso de mais de dez anos, começa a ser desmantelado o esquema de corrupção que deu origem ao Mensalão a partir da revogação da liberdade condicional de seu mentor intelectual

Urna eletrônica José Dirceu
Finalmente, podemos dizer que o Mensalão acabou. A prisão de José Dirceu decretada nesta segunda-feira, está baseada em subsídios suficientes para desmontar completamente o esquema que sustentou o maior caso de corrupção deste século. Ainda falta alguém se dispor a investigar a todos que de fato receberam pagamento para votar a favor do governo.

Afinal, se o Mensalão foi proposto para obter a maioria dos votos na Câmara e no Senado estamos falando de no mínimo 258 deputados federais e 41 senadores.


Ora, se o objetivo era obter maioria nas duas casas, comprar o voto de menos do que a maioria dos parlamentares seria jogar dinheiro fora, correndo o risco de não obter o apoio desejado. Pode ser que ainda demore muito para nossos investigadores chegarem a esta lógica tão simples, à qual aliás deveriam ter chegado há 10 anos. Se pensassem nisso antes, seguindo a montanha de dinheiro necessária para comprar o apoio de tanta gente, hoje não estaríamos falando de Petrolão.

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Já há alguns meses a imprensa vem noticiando a crescente preocupação do ex-ministro José Dirceu quanto a possível revogação de sua liberdade condicional. Alguns chegavam mesmo a dar conta da indiscrição de pessoas próximas a quem Dirceu teria confidenciado que a expectativa literalmente lhe estaria tirando o sono. A tentativa dos advogados de entrar com um habeas corpus preventivo no início do mês passado apenas confirmariam os rumores.

Aparentemente Dirceu teria razões muito fortes para estar preocupado. Razões que iriam muito além do desejo de um pai temporão estar mais presente na vida de sua filhinha de apenas 7 anos. As investigações dão conta de que ele teria continuado a comandar o esquema pelo qual fora condenado a 7 anos e 11 durante todo o período em que está preso. Sim, porque, por incongruente que pareça, para a justiça ele sempre esteve preso, sendo que a prisão dele passou a ser domiciliar.

A se confirmar as acusações, isso anularia a argumentação de bom comportamento usada pela defesa ao solicitar a progressão da pena. Então ele sabia que poderia voltar para cumprir os 6 anos e pouco restantes em regime fechado, sem contar a pena que ainda pode vir de um novo julgamento. É mesmo uma situação desesperadora.

A defesa apelou agora há pouco a noite para as mesmas teses do vitimismo a que estão acostumados a suscitar quando acuados. Disseram que a volta de José Dirceu a prisão não se justificaria do ponto de vista jurídico e que esta se deveria a perseguição política. Evitaram no entanto como de costume abordar objetivamente o teor das acusações, sem confirmá-las, mas também não as negaram.

O que chamou a atenção em dado momento no comunicado dos advogados, foi quando disseram que Dirceu estaria sendo usado como bode expiatório. Como assim? Trata-se de uma acusação muito séria, para quem conhece a história. Contam que os hebreus de tempos em tempos escolhiam um bode e punham sobre ele suas culpas para que fossem levadas para o deserto, fazendo assim a expiação de seus pecados.

Se José Dirceu é um inocente usado para expiar o pecado dos outros, quem seria então o verdadeiro culpado pelos crimes dos quais ele está sendo acusado? Será que a defesa já traçou a estratégia para além do vitimismo natural a que estão afeitos? Estariam eles dispostos a levar adiante esta linha de raciocínio? Ou teria sido só um recado para os companheiros que o teriam abandonado no momento em que ele mais precisou?

As respostas a estas perguntas poderão vir à tona ou não, dependendo dos próximos lances deste eletrizante epílogo que começou a ser escrito a partir da revogação da liberdade condicional deste que já foi condenado por chefiar o maior escândalo de que se tem notícias neste século, mesmo antes de se ter a noção exata do quão grande era o esquema.

De resto a única certeza que temos é que o Mensalão finalmente acabou, após 10 anos de crassos erros investigativos e de manobras políticas feitas para desviar a atenção daquilo que realmente importava. Um atraso que nos tem custado muito caro desde já, quando ainda nem podemos calcular a extensão dos prejuízos.

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