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Política - Saudosismo Inoportuno

30 de março de 2015 - PT conclama as bases da militância a retomarem o sentimento que havia nos anos '80


PT quer voltar às origens
Representantes dos diretórios regionais petistas elaboraram um manifesto em defesa própria. Não faz parte das propostas, mas da introdução às propostas, a vontade de "promover um reencontro com o PT dos anos '80". Cabe aqui colocar-se em perspectiva o que realmente era o PT dos anos '80. O PT dos anos '80 era um clube de amigos, basicamente formado por sindicalistas, cujo maior desejo era chegar ao poder para por em prática suas ideias de reconstrução do Brasil seguindo uma linha muito próxima do socialismo cubano, que na época parecia prosperar apesar das restrições impostas pelos poderosos Estados Unidos da América.

Muito da aparente prosperidade cubana, refletida nas conquistas esportivas nos Jogos Olímpicos usados como ponta de lança, se devia a uma propaganda que se mostrou enganosa à medida em que o jornalismo externo (já que a imprensa interna era controlada com mão de ferro pelo governo castrista) começou a denunciar  os abusos cometidos contra o povo em seus direitos fundamentais.

É neste contexto que o grupo de sindicalistas com um arranjo político basicamente espelhado na estrutura sindical da época solicita sua inscrição como partido político e consegue.


A insistência em lembrar que o PT surgiu pela união de sindicalistas, com um arranjo político sindical, se deve ao fato de que o sindicalismo brasileiro tem um histórico de ser reativo, o que significa dizer que, por total inépcia das lideranças sindicais, os sindicatos via de regra não apresentam propostas de melhorias para a classe representada. Em geral eles esperam que os patrões façam uma oferta para só então reagir, quase sempre contrariamente, barganhando para tentar ganhar um pouco mais. Esta estratégia cria a impressão de que qualquer mínimo ganho acima do ofertado pelo patrão seja considerado como uma vitória dos trabalhadores, sem levar em conta que os patrões já acostumados à barganha sindical normalmente oferecem menos do que estariam dispostos, justamente pensando em ceder um pouco mais nas negociações, por vezes menos do que poderiam.

Isso se tornará um grande problema quando o Partido dos Trabalhadores finalmente alcançar o poder. Seguindo a linha reativa, esperando que o mercado dê as cartas para só então reagir de acordo com as necessidades, em vez de tentar um projeto que antecipe os possíveis problemas administrativos, o PT descobrirá tarde demais que com o mercado não se barganha. Ou se está preparado para os problemas, ou se é levado de roldão pelas incongruências mercadológicas.


Sem ter um programa de governo com metas seguras preestabelecidas o Partido dos Trabalhadores não terá outra alternativa senão recorrer áquelas medidas que tiveram relativo sucesso em governos anteriores, medidas estas contra as quais sempre votara quando era de oposição, quando buscavam arrancar um pouco mais do governo, como manda a cartilha do sindicalismo capenga.

Neste sentido os primeiros anos do governo de Lula foram comparados aos de seu predecessor pela imprensa em geral, para alívio do mercado que esperava por mudanças radicais na condução da economia principalmente. Atravessamos assim os primeiros quatro anos de governo do PT sem grandes sobressaltos. A manutenção das metas preconizadas pelo governo anterior no que diz respeito ao projeto de austeridade nos gastos públicos lançado anteriormente e a reedição de programas sociais baseados em propostas já implementadas, ainda que usando outros nomes, permitiu que o Brasil crescesse.

Mas a inépcia reativa herdada dos tempos do sindicalismo impedirá que o Brasil aproveite o bom momento econômico para dar o salto qualitativo que se esperava. O Brasil acabará por perder o trem da história em meados do segundo mandato de Lula. O governo esperou que o mercado reagisse favoravelmente em vez de atuar proativamente criando mecanismos de proteção ao capital interno e dos investimentos. Em vez disso o governo se comportou como um operário deslumbrado com o aumento de salário recém recebido e começou a gastar freneticamente como se não houvesse amanhã. Um erro típico da mentalidade sindicalista dos anos '80, cujas consequências custarão caro ao Brasil, mas que só serão sentidas de fato a partir de meados do governo de Dilma.

Em pronunciamento oficial recente a Presidente Dilma admitiu que o Brasil ainda se ressente dos efeitos da crise de 2009, aquela mesma crise da qual Lula afirmou não ter atingido nosso país. Sem assumir no entanto que os efeitos da crise praticamente já não afetam o restante do mundo, a não os países que seguiram o mesmo caminho do Brasil, notadamente os países da América Latina. Os números mostram que o mundo em geral encontra-se em franca recuperação.


Então o que querem os representantes dos diretórios regionais do PT quando conclamam a volta do partido aos idos anos '80? Querem eles retomar a estrutura sindicalista que a rigor nunca deixou de existir durante os 12 anos de governo do PT?

Trata-se de um apelo emotivo, sem consequências práticas para a governabilidade ou para a economia, que visa conclamar os militantes a um sentimento que não existe mais. Porque o PT dos anos '80 era oposição, numa conjuntura que lhes era favorável, mas que deixou de existir desde que o PT assumiu o governo. 

Hoje, a oposição são os outros.

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