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Religião - A Eminência Parda Por Vocação

Ratzinger nos bastidores do poder em Roma
Joseph Alois Ratzinger é um teórico por formação. Como tal, parece se sentir menos à vontade ao tomar suas próprias decisões do que em dar desde pitacos ocasionais até mesmo opiniões contundentes sobre as ações alheias. Foi assim que ele passou boa parte dos anos que antecederam seu pontificado, enquanto participava decisivamente em alguns dos episódios marcantes na história recente da Igreja Católica.


Ele estava lá nos idos de 1962, durante o Concílio Vaticano II, como um teólogo perito convidado entre tantos outros, onde acreditava-se fosse ele defender as teses do movimento que ficou conhecido como a "Nouvelle Théologie". Tal movimento surgido entre teólogos católicos da França e da Alemanha, onde se inclui Joseph Ratzinger, tinha por mote promover uma maior abertura da igreja pelo retorno às raízes do cristianismo conforme narrado nos evangelhos e nas epístolas paulinas.

Surpreendentemente Ratzinger teria alegadamente tomado uma posição relativamente conservadora, em favor da Tradição, contribuindo para que a chamada ala progressista tivesse algumas de suas propostas rejeitadas, embora esta fosse representada pela maioria dos presentes ao Concílio. Os avanços em favor das liberdades, sobretudo a religiosa e a de expressão, bem como a defesa dos direitos humanos são inegáveis, embora ainda hoje alguns críticos aleguem que poderiam ter ido bem mais longe, não fosse o bloqueio velado que a minoria conservadora teria imposto às decisões do Concílio. E em meio a isso tudo, lá estava o já eminente teólogo Joseph Ratzinger a dar seus pitacos. O que poderia dar ensejo a que se interprete como um tardio "mea culpa" a declaração do Papa Bento XVI em que ele diz que o Concílio Vaticano II ainda não chegou ao termo almejado quando ele foi convocado.

Em 1978 o cardeal Ratzinger participou dos dois conclaves que elegeram respectivamente aos Papas João Paulo I e João Paulo II. Foi nomeado por este último Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé (CDF), tornando-se reconhecido como um dos mais influentes integrantes da Cúria Romana em defesa da ortodoxia católica durante os 23 anos que esteve à frente deste órgão da Santa Sé. A nota curiosa é que a Congregação para a Doutrina da Fé é a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, sendo conhecida anteriormente como a Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal, a própria representação da ortodoxia católica por excelência. Ali o teólogo Ratzinger deve ter se sentido muito à vontade, já que a CDF é responsável também pela Comissão Teológica Internacional. 

Um de seus atos mais conhecidos à frente da Congregação Para a Doutrina Pela Fé talvez seja a imposição do voto de silêncio ao então Frei e também teólogo Leonardo Boff, em 1985. O processo assinado pelo próprio Cardeal Ratzinger concluiu que "as opções de Frei Leonardo Boff aqui analisadas são de tal natureza que põem em perigo a sã doutrina da fé, que esta mesma Congregação tem o dever de promover e tutelar".




Finalmente, em 2005, O Cardeal Joseph Ratzinger foi eleito Papa numa das votações mais rápidas da história da Igreja Católica. A julgar pelo seu histórico poder-se-ia dizer que poucas vezes o anúncio "Habemus Papam" tenha sido feito com tanta propriedade. Um homem talhado pela experiência para o exercício do pontificado. O homem certo, ocupando o lugar exato, no momento apropriado. Todos concordariam com isso, menos Ratzinger. Para ele o papado viria um tanto tarde. Ratzinger é um homem cansado, abatido sob o peso  de seus 86 anos. Pelo menos foi o que ele alegou no último dia 11 de fevereiro, ao anunciar sua retirada do cargo no dia 28.

Certamente até o próximo dia 28 não faltarão especulações sobre quais poderiam ser as possíveis motivações para a surpreendente renúncia do Papa Bento XVI, e mesmo depois, quando ele se propõe a viver em regime de reclusão voluntária nas imediações do Vaticano. O fato é que a saída de cena do Bispo Emérito de Roma, com toda a sua bagagem intelectual e sua experiência teológica poderá  ser vista por alguns como um grande desperdício. Resta saber se Ratzinger terá forças para resistir à tentação de assumir suas antigas e eminentes funções como perito e conselheiro junto ao próximo Papa, caso seja solicitado. Uma questão que só o tempo poderá responder.



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