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Agnosticismo sem Mistérios

“Sou sim mais sábio que esse homem; pois corremos o risco de não saber, nenhum dos dois, nada de belo nem de bom, mas enquanto ele pensa saber algo, não sabendo eu, assim como não sei mesmo, também não penso saber... É provável, portanto, que eu seja mais sábio que ele numa pequena coisa, precisamente nesta: Porque aquilo que não sei, também não penso saber.” (*)
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Nestas palavras contam que Sócrates pautou sua defesa perante o tribunal que o condenou. Ele não está dizendo aí 'Eu só sei que nada sei', como vemos alguns atribuir-lhe indevidamente a fala. Ele diz que, diferente dos filósofos de sua época, não pensava saber, nem ensinava, o que realmente não sabia. Na sinceridade de Sócrates ao admitir que há uma diferença patente entre que sabemos de fato e o que pensamos saber, encontraremos os alicerces do Agnosticismo.

Sócrates gabava-se de ter desenvolvido uma metodologia própria para verificação do conhecimento ao ponto de poder determinar se alguém sabia mesmo aquilo de que estava falando ou se estaria apenas se deixando levar por inferências lógicas sem nenhuma possibilidade de comprovação empírica.
Filósofos posteriores desenvolveram a metodologia de Sócrates ao ponto de se colocar em dúvida praticamente todo o conhecimento baseado exclusivamente na argumentação, observando que a cada raciocínio lógico usado para explicar um determinado evento corresponderiam outros tantos raciocínios tão lógicos quanto, mas apontando na direção oposta.
O ceticismo exacerbado quanto ao conhecimento levaria inexoravelmente ao Niilismo absoluto, onde todo e qualquer conhecimento é negado, ao ponto de se concluir não haver nenhum conhecimento de fato. Para o Niilismo, o conhecimento adquirido a partir da observação dos fatos naturais seria deturpado pela limitação de nossos sentidos, daí à falsa impressão do que nos cerca e aos raciocínios facilmente objetáveis, como Sócrates bem demonstrara.

Apesar das vertentes filosóficas que teimavam na tese Niilista, a pesquisa científica prosseguia. A pressão do questionamento filosófico provocou o desenvolvimento de metodologias e técnicas que pudessem por à prova as descobertas da ciência.

A René Descartes atribui-se a prerrogativa de ter iniciado o processo de desenvolvimento da metodologia baseada na experimentação empírica para provar o conhecimento científico.

Quando Isaac Newton demonstrou na prática a possibilidade do método demonstrar o conhecimento abstraído da observação dos eventos naturais, explicando suas causas, uma parte da Filosofia se rendeu à Metodologia Científica. 

Neste contexto surgiu o cerne do Agnosticismo moderno, como contraponto a negação de todo e qualquer conhecimento, acrescido e burilado ainda pelas importantes contribuições de vários nomes como David Hume, Imanuel Kant, Charles Sanders Peirce e Karl Popper entre tantos pensadores.

A história do nome adotado por este movimento começa no episódio em que Thomas Huxley, chamado o Buldogue de Darwin, ao acusar os líderes religiosos de seu tempo da prática do proscrito Gnosticismo, declarou-se agnóstico, como ele mesmo diria, pela falta de um "ismo" que melhor definisse sua disposição em relação aos temas religiosos.

No entanto há ainda que se diferenciar o agnosticismo proferido nas provocações de Huxley, daquele Agnosticismo surgido e desenvolvido desde a primeira vez, quando Sócrates pôs em dúvida o conhecimento alegado por terceiros. Daquele agnosticismo declarado por Huxley, a filosofia emprestou apenas o nome.

O agnóstico não está em cima de um muro. Escolheu o lado da ciência. Não a ciência dos púlpitos e dos periódicos usados para propaganda ideológica. Mas a ciência que vem dos laboratórios, onde o conhecimento é posto a prova na prática, pela metodologia científica. Agnosticismo significa dizer que não há conhecimento fora do método e da disciplina científica.

(*) Apologia de Sócrates. Tradução André Malta. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010 - p. 73-74.

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