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Comportamento - A Cervejinha do Guarda

Foto - Revista VEJA
Deixando a hipocrisia de lado, precisamos admitir abertamente: a cervejinha do guarda é uma instituição nacional.
Um amigo meu, taxista que trabalha na madrugada outro dia teve problemas com um fortão embriagado que queria pagar só a metade da corrida. Muito confiante, o motorista resolveu tentar a sorte e ficou enrolando o cara, na esperança de que passasse por ali uma patrulha policial. Não demorou muito e lá estava ao longe a salvação. Meu amigo discretamente fez sinal e os policiais, muito solícitos e sempre atentos às possibilidades da noite, se aproximaram enquadrando aos dois. Explicada a situação, e um dos policiais com a autoridade de um juiz conciliador assumiu a negociação:

- Sua pessoa sabe que os senhor está errado não sabe? O rapaz está trabalhando e precisa ser pago.
- O senhor está certo "seu" guarda. Mas eu saí meio desprevenido e não pensei que a corrida iria custar tão caro. De modo que eu só tenho aqui R$ 20,00 e ele está dizendo que a corrida foi R$ 50,00. Fora isso eu só tenho cartão.
- Então vamos fazer o seguinte: sua pessoa deixa os R$ 20,00 e mais o relógio como garantia e quando o encontrar novamente paga a diferença para pegar de volta seu relógio, certo?
- Mas meu relógio vale mais do que R$ 30,00.
- Ou isso ou teremos de levar os dois para a delegacia e lavrar a ocorrência e nós não queremos isso, não é mesmo?
- Bom, se não tem outro jeito ...

O fortão constrangido entregou o relógio, mas não sem dar uma boa olhada para o meu amigo, daquelas que lhe faria o sangue gelar, se ele não estivesse ladeado por dois simpáticos e bem armados guardas. O cara se afastou sem olhar para trás e o taxista tratou de agradecer penhoradamente a ação dos guardas, mas estes não fizeram menção de ir embora. Ficaram olhando para ele, com se ainda esperassem mais alguma coisa. Claro! Como o meu amigo, depois de ser socorrido de uma situação daquelas pensava em ir embora sem nem um aperto de mão? E logo que lhe caiu a ficha, apertou a mão estendida, vendo escorrer-lhe entre os dedos a nota de R$ 20,00 que acabara de receber. Agora sim, a praxe estava cumprida e meu amigo poderia seguir seu caminho, entre os votos das mais sinceras felicidades e as recomendações de mais  cuidado na próxima vez.

E eu, sabendo de mais este acontecimento, ficava a pensar:
Onde irão parar tantas cervejinhas recolhidas dia e noite nas ruas cariocas?

Finalmente esta semana foi solucionado o grande mistério. Foi encontrado num Batalhão de Polícia Militar do Rio de Janeiro um estoque de latinhas de cerveja de fazer inveja aos mais badalados donos de bares do estado. Quase três mil latinhas dentro do que deveria ser uma unidade prisional da Polícia Militar destinada a abrigar policiais afastados das funções justamente pelo envolvimento na prática de crimes.
Não preciso dizer que todas as medidas administrativas foram tomadas, quando o fato veio à tona. O oficial de dia foi acionado e responderá por conduta imprópria na execução de suas funções.

Mas cá entre nós. Uma instituição como essa, tão arraigada na praxe policial, não há de perecer assim tão fácil. As cervejinhas hão de continuar a ser recolhidas ainda e, tão logo esqueçam o ocorrido, encontrarão um outro lugar mais apropriado, mais seguro e menos óbvio para estocar o produto do trabalho suado de nossos guardas.

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