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Opinião - "A Sociedade Despedaçada"

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Desde que foi usada por Sartre, em sua defesa aos intelectuais, a sentença tem sido tomada em vários sentidos diferentes por diversos setores da sociedade. Mas talvez nunca tivesse sido tão apropriada quanto no uso recente por David Cameron, Primeiro Ministro da Grã Bretanha. Ele declarou em discurso oficial que "a sociedade despedaçada voltou ao topo da agenda [do governo]".

O Premier, que afirmara dias antes que "a cultura do medo não iria tomar conta das ruas" como tomou, assumiu um tom mais realista ao conclamar a sociedade organizada a buscar respostas para a recente onda de violência urbana que tem varrido  as principais cidades do Reino Unido. O próprio Primeiro Ministro se antecipou em apontar o que para ele seriam as principais causas da violência perpetrada na maioria dos casos por jovens das classes socialmente menos favorecidas. Mas, longe de assumir o mea culpa pela política econômica que tem promovido repetidos cortes nos gastos sociais de seu governo, Cameron optou por buscar os motivos em condições que, a primeira vista, estariam fora do âmbito estrito das políticas públicas adotadas, citando "a falta de disciplina nas escolas, crianças com pais ausentes e a cultura das "gangs" na Grã Bretanha" como causas prováveis.



As manifestações violentas devem ser rejeitadas em todas as instâncias em que se apresentem e em hipótese alguma podem ser justificadas seja por quais circunstâncias venham a se manifestar. Após o conclame da sociedade pela busca de soluções, o Ministro, pretendendo dar uma satisfação a seus cidadãos, anunciou que reunirá os Ministros de Estado para delinear os termos da "guerra" que pretende travar "contra os jovens que promoveram o caos no país".

Este talvez tenha sido apenas mais um equívoco a se somar a sucessão que tem se perpetrado desde o início das manifestações. Quem tem muito a perder não declara guerra contra quem já perdeu até a esperança. A história nos ensina que grandes potências bélicas já perderam guerras por conta do pedante desprezo da força encontrada no desespero de causa e na obstinação do oponente. As massas querem ser ouvidas e, embora tenham escolhido a maneira mais vil para se fazer notar, ainda não atingiram o objetivo a que se propuseram quando iniciaram sua caminhada destrutiva. A recusa em admitir as verdadeiras motivações dos motins na Grã Bretanha podem custar mais caro a já "despedaçada" sociedade britânica.

Curiosamente, há seis anos, quando rebeliões com as mesmas características explodiram em França, o renomado periódico The Times de Londres, comprovando o dito popular de que "pimenta nos olhos dos outros é refresco", apontava os erros o governo francês vaticinando que "a pressão [sobre as minorias] veio crescendo por trinta anos e teria que fatalmente explodir em algum momento". Poderiam ter usado as mesmas lições em casa.

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