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Filosofia - Análises Cínicas

O Cinismo de Diógenes de Sínope
Muito tenho lido da opinião de simpatizantes do Cinismo enquanto conceito filosófico e ainda me surpreendo ao observar que a maioria dos que estudam Diógenes de Sínope se prendam muito mais a uma atitude mitológica muitas vezes descritas como mal compreendida perante seus contemporâneos, do que propriamente a alguma reflexão filosófica que se possa extrair de seu comportamento peculiar. Não creio que tenham sido as bravatas atribuídas a Diógenes que o tenham alçado ainda em vida ao patamar de filósofo respeitado.


Na realidade minha impressão é a de que o comportamento alegadamente extremado de Diógenes, pudesse ter sido metodicamente estudado por ele, contribuindo em muito para que os demais prestassem atenção não apenas na pessoa, mas também em sua contribuição para a filosofia que deve ter sido substancial, ou não seria reconhecido como tal. É notável que quase nada do que Diógenes falou tenha permanecido até nossos dias como autógrafo de seu ensino e, mesmo assim, não sem muitas controvérsias quanto a autenticidade dos diálogos a ele atribuídos.

Observando o prestígio que Diógenes aparentemente gozava entre seus pares desenvolvi a opinião que boa parte de suas reflexões filosóficas podem ter sido absorvidas por filósofos posteriores, sem que estes se dessem à deferência de atribuir-lhe o crédito pela originalidade das ideias, hoje facilmente observáveis em movimentos filosóficos modernos, como no caso do Niilismo e do Agnosticismo, por exemplo.

Por isso resisto a esta tendência reducionista de que o evacuar-se, o urinar-se e o masturbar-se em público fossem por si os denominadores da Anarquia prefigurada pelo primeiro “Maluco Beleza” reconhecido na história da humanidade. O conceito de Anarquia defendido por Diógenes seria muito mais profundo e atingiria diretamente aos alicerces da autoridade estabelecida, notada e principalmente no que se refere aos alegados detentores do conhecimento.

Tenho a pretensão de observar este ponto de vista simbolizado num suposto diálogo entre Diógenes de Sínope e Alexandre, O Grande.

Contam que Alexandre, grande admirador dos sábios, em ouvindo falar de Diógenes, o intimou a comparecer diante dele. Não obtendo sequer uma resposta da parte de Diógenes, o Imperador teria ido pessoalmente ao alto de uma colina encontrar o filósofo quando este tomava seu banho de sol. Não se conta o teor da conversa que tiveram, da qual resultou ao final que Alexandre, talvez impressionado pelo que ouvira, ou quem sabe tocado pela condição de penúria do filósofo, oferecesse a ele qualquer coisa que desejasse.

A esta altura Alexandre, fosse de propósito ou não, posicionou-se de tal forma que projetava sua sombra sobre Diógenes, impedindo seu banho de sol. Diógenes responde então ao próprio representante do Sol na terra que tudo o que ele desejava é que o imperador não se colocasse entre ele e seu sol, arrematando:
 "Desejo que ... não me prives daquilo que não me podes dar."
 Esta passagem tem sido interpretada por alguns como uma alegoria, usada para ilustrar a disposição de Diógenes em não aceitar que o conhecimento, simbolizado nos raios do Sol, chegasse a ele corrompido pela interposição da sombra de quem quer que fosse. E este talvez seja o maior legado filosófico deixado por Diógenes.

Claro que a referência de terceiros tem importância vital no processo de formação de nosso conhecimento. Foi pelo acúmulo e pela catalogação da experiência de outros antes de nós que a humanidade chegou ao patamar de desenvolvimento intelectual e tecnológico em que nos encontramos atualmente.

Mas se faz necessário ter cautela antes de sairmos por aí recitando possibilidades improváveis como se fossem fatos inegáveis, só porque alguém com um título altissonante resolveu inadvertidamente fazê-lo. Muitas vezes uma pesquisa, mesmo a mais superficial, sobre o assunto proposto pode revelar divergências substanciais e suficientes para se por em dúvida várias assertivas tidas como definitivas por alguns.

O bom senso aconselha que não nos permitamos deixar ofuscar pelo brilho artificial dos auto-proclamados sábios, refletindo seus equívocos como se fossemos espelhos incapazes de emitir luz própria. Bastaria que nos déssemos oportunidade de desenvolver um espírito crítico na avaliação das propostas que estejam flagrantemente em confronto direto com aquilo que efetivamente podemos observar por nossas próprias experiências.

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